Apresentação

Revista Linha Mestra – Ano XI. No. 33 (set.dez.2017). ISSN: 1980-9026

Travessias entre imagens, educação e filosofia

Fernanda Omelczuk*
Giovana Scareli**
Priscila Fernandes***

Quantos sentidos atravessam uma travessia? Talvez aqui estejam reunidos alguns. Inspiradoras partidas para uma queda em voo livre – pelo ar; para o início de uma caminhada – pela terra; para um mergulho – pelo mar.
Algumas imagens vem a mente quando proferimos ou ouvimos a palavra travessia: nadadores, romeiros, aventureiros a pé, de carro, motocicleta, bicicleta, barco, grupos nômades, todos eles atravessam, cruzam, fazem travessia. As travessias estão contadas nos romances, poesias, filmes, músicas. É pensada por filósofos, sociólogos, historiadores dentre outros.
No caso de uma de nós, o tema do 7˚ Encontro com Imagens e Filosofia – seu primeiro como membra do GEFI – arrasta o pensamento à memória de sua “primeira travessia”.

Contida desde pequena pelos limites seguros das bordas da piscina em que aprendeu a nadar, aos 8 anos foi colocada diante do mar. Sem raias. Sem bordas. Sem começo nem fim. Sem cloro.
Dejetos. Medo. Nojo. Em meio as braçadas, desejava voltar para o conforto quadrangular em que fora educada…
Sem azulejos ou marcas para indicar o caminho, o fundo era marrom. Queria olhar para frente. Ver a luz. A terra firme e as cores. Ver as boias flutuantes sob o mar. Imaginar a escritura em “U” sob a superfície que deveria contornar. E voltar.
Para não encarar o desconhecido nadava peito, um estilo cachorrinho profissional que lhe permitia manter a cabeça o maior tempo possível fora da água.
Crawl Crawl! Uma voz firme e familiar interrompia seu nado. Parecia perto. Atleta obediente, acatava a ordem, dava uma, duas, três braçadas e voltava para o peito. Crawl! Crawl! Insistia a voz.
Entre peitos e crawls escreveu o “U” sob o mar até chegar de volta à areia – Ulisses, seu técnico, em seguida saiu da agua. A voz era dele. Atento à insegurança que a menina demonstrara minutos antes da largada, decidiu nadar junto, lançando-se ao mar.

Pesquisar, aprender e ensinar é um mergulho junto, assim viemos experimentando. Não é fazer o mesmo trajeto. No mar, as boias são pistas. Multiplicidades de contornos possíveis a fazer para retornar. Pode-se fazê-la mais aberta. Ou circular a boia bem de perto. Pode-se olhar para o fundo, para frente, variar o estilo.
Na maioria das vezes, aprendemos a nadar em piscinas. Fazer pesquisas com raias, bordas, o caminho é reto. Sabemos de onde partir e onde vamos chegar. Tudo é cristalino. Diante do mar nos damos conta que saber nadar não é suficiente. É preciso se relacionar não só com a água mas com as imagens | memórias | fantasias | devaneios | sons | temores que emergem do escuro do nada, como O nadador de Lynne Ramsay**** . Já não sabemos se o que vemos, ouvimos, imaginamos, é nosso, dos outros, se existe ou não. E isso faz diferença?
No mar, na pesquisa, na educação, é preciso misturar-se aos restos, dejetos, às imagens, aos trapos, aos outros. Meus, seus, nossos, incorporá-los a travessia. E está tudo bem, porque de repente nos damos conta que não estamos sós… estamos agora em três amigas, iniciando a travessia de organizar o 7º Encontro com Imagens e Filosofia, cujo tema é “travessias”- para receber, acolher e compartilhar com outros companheiros um percurso comum e ao mesmo tempo singular.
Que travessias individuais nos trouxeram até aqui? Quantos desejos nos vinculam por essa travessia coletiva?
Podemos pensar a vida como uma das imagens da nossa grande travessia. Em muitos momentos nos encontramos entretidos “na ideia dos lugares de saída e de chegada”, como diz Guimarães Rosa (2006, p. 35), o que, em muitos casos, nos impede de experienciar o momento presente. Não ver o que a travessia proporciona, talvez seja um dos perigos dessa vida.

Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do que em primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?

Como temos atravessado nossa vida? Com quem? Podemos caminhar, voar, nadar por este mundo de muitas formas, sozinhos e/ou com outras pessoas. Pensamos que um amigo é como Gigito, que apresenta o mundo cheio de maravilhamentos para o cego Estrelinho, personagem do conto homônimo do escritor moçambicano Mia Couto (2012, p. 21):

[…] descrevia era o que não havia. O mundo que ele minuciava eram fantasias e rendilhados. A imaginação do guia era mais profícua que papeira, o cego enchia a boca de águas:
– Que maravilhação esse mundo. Me conte tudo, Gigito!

É isso que os textos dos amigos reunidos neste dossiê fazem. Nos apresentam um mundo. Aprendemos com eles a ver, imaginar e criar o percurso, desenvolvendo uma atenção ao caminho, aos gestos, um encantamento, uma emoção, uma atitude de esperança, mesmo agora, onde parece que tudo já está perdido. Não está. Porque não há chegada.
Assim, o texto de Luciano Bedin da Costa Aos que ainda escrevem: a escrita acadêmica nos designs do neoliberalismo nos convoca a sonhar – hoje e urgente. Sonhar nossos próprios sonhos diante da colonização do imaginário, colonização dos desejos e da subjetividade, da transformação dos direitos sociais em serviços, da estética transliberal imposta à pesquisa, à escrita, ao pensar, aos afetos. Combatendo a ideia, cada vez mais vigente, de que estamos sucumbindo ou que perdemos a luta, Luciano se aproxima do fugitivo solitário de Thomas Eliot por um lado, mas se distancia dele ao convocar que sonhemos juntos, e não sozinhos, nossos próprios sonhos. Luciano nos convida a (escre)ver que ainda é possível “constituir um imaginário social capaz de suportar a violência dos ataques atuais a que estamos submetidos”.
Com o texto de Heloísa Lopes Agostinho, temos a impressão que um desses caminhos imaginários é a loucura – loucura como exercício de resistência – reverenciada como potência para a invenção, deslocamento, estranhamentos, nonsenses – sem sentido para que novos sentidos possam emergir – loucura desmistificada da ordem normativa que impera um modelo de relação, de realidade, de educação, de pesquisa. Travessia no país das maravilhas nos convida a aprender com Alice a ser…. professor, pesquisador?
Pensamos que Wenceslau Machado de Oliveira Jr. já tenha aprendido um bocado com a personagem de Lewis Carroll. A delicadeza e generosidade com que compartilha uma pesquisa recém iniciada, inacabada como a própria vida… Variações em um lugar-escola atravessado pelo cinema, E Cartografia dos afetos do espaço escolar através das imagens E Derivas dos corpos-câmera por uma escola infantil E Muitas câmeras no jardim da infância
E… como no país das maravilhas, tudo é possível, um título pode virar outro num passe de mágica, um gesto de criação. Sua serenidade e confiança em meio a tanta abertura, imprevisibilidade, perguntas e travessias porvir, afetos que angustiam até mesmo pesquisadores experientes, são colocados como paisagens obrigatórias da travessia, para as quais se pode olhar sem medo. Wenceslao sacode as certezas duras que sobrevoam a ciência compartilhando dúvidas, fissuras de uma investigação com espaços, professoras, escolas que se reinventam com as imagens que criam.
Com as miradas de Pablo Quaglia, por sua vez, somos convidados a olhar para os vazios da travessia. Em seu artigo Travessias Urbanas: a fotografia dos espaços vazios e não-lugares, propõe uma discussão sobre as paisagens urbanas contemporâneas, trazendo a relação entre vazios urbanos e não-lugares por meio da fotografia.
Assim como Pablo, o artigo (Co)Existências Nômades: Traslados Poéticos em Redes Narrativas, de Fernanda Macahiba Massagardi traz experiências com fotografias, porém essas, foram passear por diferentes lugares para que outras pessoas interferissem nas imagens. Uma série de autores, conceitos, filmes, são convocados pela autora que afirma “pensar imagens é percorrer trajetórias e cartografias não apenas geográficas, mas também internas e significativas”.
As cartografias desse encontro podem ser lidas com certa fidelidade, e também cheia de liberdade poética, no texto Os dias e os gestos: uma viagem, de Leandro Belinaso. Ele traça uma cartografia dos dias, dos gestos, dos afectos num exercício de escrita que nos convida, tanto a ler o seu texto, mas também caminhar pelas ruas e se deixar guiar pelos acontecimentos, pelo inesperado, pelos “Gestos esvoaçantes que embalaram os abraços da chegada em meio a uma grade. Gestos brincantes diante do disco de um artista que já não está. Gestos de inundação, que me levaram a Noll e seus romances mínimos.”
Ao nos encontrarmos com o artigo de Giovana Scareli e Diogo José Bezerra dos Santos Filmes e educação: algumas travessias transitamos pela construção cinematográfica de um ser-tão minas, compondo-se no cinema. O tão que nos leva a pensar no demasiado, no que excede, sobra e deixa de ser sendo muito. Os autores exploram as educações possíveis com filmes, discutem o movimento dos clichês que elaboram estratégias de não-pensar, ou pré-conceber, e exploram possibilidades então de um cinema “abrindo espaço para a experimentação, fazendo devir o pensamento”.
O movimento de aprender elaborado por um corpo e de pesquisar na pós graduação é tecido no texto de Felipe Vargas da Silva, No entre de uma formação docente menor. Ele elabora uma narrativa desses espaços moventes de aprendizagem e duvida da estruturação do que se quer, ou do que se pode querer aprender. “A vida nunca é o que se espera dela, mas sim sempre o que acontece.” Assim, seu texto diz da pesquisa que cartografa possibilidades ao disparar perguntas “o que pode?”.
Na proliferação dessa pergunta “o que pode um texto?” Andrea Versuti e Daniel David Silva nos apresentam as aberturas possíveis das histórias em quadrinhos na perspectiva das narrativas transmídia. A transmidiação como uma escrita de resistência: travessias por entre os vãos que desestruturam os binômios emissão/recepção, os “super heroes” estudados por Andrea e Daniel “movem-se por outros desejos”, produzem-se em outros espaços, perdem-se e escapam das lógicas da estabilidade inventando outras educações, outras resistências.
Ideias, encontros, amigos, travessias.
É preciso ainda que se diga: das travessias, importantes também são as paragens. Nas paragens se celebram as conquistas, se bebe os fracassos, se encontra um canto quente para dormir e um prato de sopa para aquecer o vazio. Nas paragens contamos dinheiro e reorganizamos as rotas.
Ao final do 7º Encontro com Imagens e Filosofia fomos, juntos, com vários dos pesquisadores que escrevem esses textos que apresentamos aqui assistir ao espetáculo Fado***** e depois cantar e comer e beber juntos numa celebração, uma paragem.
Nessa paragem que ainda hoje reverbera em nós intensidades, alegrias, pensamentos potência de vida, naquela noite de Fado foi iniciada na voz de Maria Betânia que declamava:

[…] de que serve ter um mapa,
se o fim está traçado,
de que serve a terra à vista,
se o barco está parado,
de que serve ter a chave,
se a porta está aberta,
pra que servem as palavras,
se a casa está deserta.******

Paramos para apreciar o cansaço e a alegria dessa travessia movente, sem certezas, que aposta intensivamente na amizade. Pensar com, investir em estar acompanhado pra poder pensar, pra poder existir na potência do outrar-se. Escrever junto e falar, numa casa povoada, aventurar-se. Pensar, cantar, comer, escrever juntos. É Renato Russo que ensina “muitos temores nascem do cansaço e da solidão”. Não temer, re-existir na potência do texto, por teimosia. Maria Betânia em Fado ainda perguntava (e pergunta ainda, incessante em nós) “quem me leva os meus fantasmas?”. Pergunta também que timbra com a fala de Luciano Bedin, dias antes “se eu desistir, você me acolhe?”. Acolhidas, temos a segurança de falar, de escrever, de existir.

A cada encontro, uma experimentação de si. A cada experimentação de si, uma nova rede de afectos e de encontros é iniciada. Alguns encontros elevam, ao máximo, a potencia de agir e a força de existir de um corpo, e outros reduzem-nas. Um bom encontro é aquele que convêm, alegra, vigora, e intensifica a força de existir. Um mau encontro é aquele que enfraquece e entristece. Portanto, os termos bom e mau expressam, unicamente, a variação da capacidade de agir de um corpo. Sejam quais forem as implicações, nada é bom ou mau terminantemente. É inacabável o mapeamento das conjugações (FERNANDES, 2013, p. 65).

Referências

BALLÓ & BERGALA (Org.). Motivos visuales del cine. Barcelona: Galáxia Gutemberg, 2016.

CORAZZA, S. Artistagens. Filosofia da diferença e educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

COUTO, Mia. Estórias abensonhadas. 1. ed. 5. reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

DELEUZE, G. GUATARRI, F. Mil Platôs 1. São Paulo: Editora 34, 2011.

FERNANDES, Rosana A. Passeios esquizos: cinema, filosofia, educação. Maceió/AL: Edufal, 2013.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. (Biblioteca do Estudante).

Filme Citado

O NADADOR. Direção: Lynne Ramsay. Escócia. 2012. P&b. 17min.

 * Professora Adjunta do Departamento de Ciências da Educação – DECED/UFSJ. Membra do Grupo de Pesquisa em Educação, Filosofia e Imagem – GEFI.
** Professora do Departamento de Ciências da Educação – DECED/UFSJ e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Educação, Filosofia e Imagem – GEFI.
*** Professora Associada do Departamento de Ciências Naturais – DCNat/UFSJ. Membra do Grupo de Pesquisa Educação, Filosofia e Imagem – GEFI.
**** O curta está disponível em: <https://vimeo.com/49461718>. Acesso em: 30 out. 2017.
***** Fado, da Companhia Teatro da Pedra (<https://teatrodapedra.com/fado/>). O Espetáculo teatral tem direção e dramaturgia de Juliano Pereira e foi encenado em sessão especial como parte da programação do 7º Encontro com Imagens e Filosofia.
****** Trecho retirado de PEREIRA, Juliano Felisatti. Implicações entre teatro e educação na criação do espetáculo teatral “Fado”. 2017. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal de São João del-Rei, São João del-Rei, 2017.

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